quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

... ceia quente

Uma noite com os sem abrigo, pelas ruas de Aveiro

A noite estava gelada. Eram 21:30h quando carregamos a carrinha, das Florinhas do Vouga, de leite e água quente, para chá ou café, à escolha de quem tem a coragem de enfrentar a sua condição.
Éramos 4 mulheres. Fomos até à estação de comboios, mas ninguém nos esperava. Passámos ao lado do Fórum, encontrámos em mendigo estendido no chão, um olho meio aberto e o outro meio cerrado. Veio a ambulância e seguimos viagem até ao Rossio. Aí começou a "ceia quente”.
Estacionámos junto às senhoras profissionais do sexo. Esperámos um pouco, e de repente apareceram: um jovem, um senhor e uma senhora… Cada um contou a sua história! Ninguém perguntou nada sobre quem é na realidade, pois somos todos quase anónimos
Sai um cafezinho com leite e uns bolinhos para o primeiro; para o seguinte; e, para a senhora também! Uma conversa aqui outra ali…e o tempo passa! Os olhares não se cruzam entre si, cada um sabe do seu mundo.
Ainda houve os que ficaram a ver de longe o que se passava ali, mas a distância manteve-se! Talvez amanhã se aventurem à "ceia quente", para dormirem mais aconchegados…

Isto não foi apenas uma boa acção, nas noites que antecederam o Natal, mas sim um projecto que pretende ficar a funcionar por todo o ano, nas ruas de Aveiro...

Mariana Marques

3 comentários:

Mariana disse...

Que bom alguém dar tempo de graça (voluntariado) a pessoas que aparentemente não vêm além dum mundo sem perspectivas de melhoras...

...acredito que além do calor nas mãos pelo café, o calor da visita, do encontro, da importância que se lhe dá (quem de respeito) tem um valor de calor humano sem preço! Por isso, só mesmo dado!!

Coragem para quem o faz!

Pois, como diria o poeta brasileiro: "só é nosso aquilo que a gente dá! O beijo que voce deu é meu, é seu beijo!"

Sandra Minck disse...

Lindas palavras da Mariana.
Sabe que aqui no Brasil há um pessoal que distribue café da manhã e sopa todos os dias do ano as pessoas que moram nas ruas. Oferecem ainda artigos de higiene pessoal e tentam dar um pouco de dignidade a essas pessoas. Realmente alguns não se aproximam, mesmo com fome. Para alguns aquela sopa quentinha é a unica refeição do dia, situação triste, mas real... por isso ainda digo, eu tenho fome, muita fome, mas não de comida e sim....
A fome da alma.
Tenho fome de ver o culpado pagando com dignidade pelo seu erro e o inocente livre.
Tenho fome de ver a Constituição e as leis do meu Brasil saírem do papel para a prática.
Tenho fome de justiça social.
Tenho fome de que crianças não fiquem mendigando na rua enquanto seus pais, escondidos, fumam crack num cachimbo improvisado.
Tenho fome de ver políticos corruptos e demagogos na miséria.
Tenho fome de que a verdade prevaleça sobre a mentira e o bem sobre o mal.
Tenho fome de ver um trabalhador viver dignamente junto a sua família.
Tenho fome de atos e não palavras.
Tenho fome de justiça.
Sei que morrerei de fome.
Desculpem o desabafo.
Um 2008, sem fome de comida ao povo, pq a minha ainda vai doer por muito tempo.

Anónimo disse...

pois é Mariana isto é bem verdade...
enquanto uns precisam, outros ,até inocentemente deitam fora ou esbanjam...
Nesta quadra natalicia somos convidados por todas as convenções a gastar dinheiro para dar presentes aos outros. E estas convenções estipulam que quem não faz compras é porque não tem dinheiro. Oque deveria interessar aos que se querem pautar pela diferença é que possam dar prendas diferentes.
Nesse campo tu estás a dar um bom exemplo, mais concretamente a ajudar quem precisa. Continua porque infelizmente esta cidae precisa e vai precisar cada vez mais de pessoas como tu...

beijinhos

Jorge Melo